domingo, 30 de novembro de 2014

20 - 1ª GALA ANUAL DA GORONGOSA







Como vinha sendo anunciado, sobretudo na comunicação social de Moçambique, realizou-se na passada 5ª feira, dia 27, a 1ª Gala da Gorongosa, promovida pelo Clube de Empresários da Gorongosa, uma organização de recente criação e que envolve algumas das maiores empresas (nacionais e estrangeiras) do país.
Esta Gala teve a presença de 180 convidados, entre eles os ministros do Turismo, Carvalho Muária e da Juventude e Desportos, Fernando Sumbana, e também o embaixador de Portugal em Moçambique, José Augusto Duarte. 

O  evento  realizou-se nas belas instalações do Hotel Indy Village, em Maputo, pertencente ao grupo Visabeira, que também é concessionário do acampamento de Chitengo, no Parque Nacional  da Gorongosa.
A organização das cerimónias e do jantar foi extremamente cuidada e muito profissionalizada. O salão muito bem decorado, com predominância de palmeiras a condizer com o ambiente da Gorongosa. As mesas primaram também pela excelente apresentação, destacando-se os cartazes de animais do Parque e esculturas de espécies comuns no mesmo, feitas em madeira por artistas moçambicanos.

A  ementa do jantar constou de uma variada gama de pratos da tradição moçambicana, e outros, em  serviço de buffet chamado de "Buffet Gorongosa", que rivalizou com os melhores servidos em hoteis de cinco estrelas portugueses.
Das  cerimónias ali decorridas, destaco  a intervenção do administrador do Parque, Dr.Mateus Mutemba, que já nos habituou, noutras ocasões, a discuros de elevado rigor de conhecimentos sobre a conservação e ao seu talento de orador. Na sua segunda intervenção, quando apresentou um dos vários " Herois da Conservação da Gorongosa" premiados nesta Gala, fê-lo de uma forma que levou à emoção todos os presentes e foi interrompido várias vezes com salvas de palmas.
Gostei também de outras intervenções, nomeadamente a do ministro do Turismo que entre outras abordagens enalteceu o trabalho até agora desenvolvido no Parque pela sua administração, dirigida pelo Dr. Mateus Mutemba, e pelo Projecto de Restauração da Gorongosa  co-dirigido pelo referido filantropo, louvando também a acção dos cientistas, técnicos e trabalhadores que ali prestam
serviço.  Feliciou aqueles que receberam o prémio de "Herois da Conservação da Gorongosa" e fez um elogio  especial ao Dr. Baldeu Chande, que foi o primeiro tecnico dos Serviços da Fauna a inciar, em 1994, a recuperação do Parque da Gorongosa.

Em nome do Núcleo Coordenador do Grupo de Amigos da Gorongosa (GAG), felicito os responsáveis pela organização desta Gala, assim como todos os premiados no decorrer das cerimónias da mesma.

O GAG congratula-se com a criação do Clube de Empresários da Gorongosa, ciente que é uma mais valia para o Parque, tanto na sua recuperação e desenvolvimento, como na sua divulgação a nível nacional e internacional.

Maputo, 29 de Novembro de 2014 


REPORTAGEM FOTOGRÁFICA




Aspecto parcial da Gala



O Ministro do Turismo, Carvalho Muária, no uso da palavra quando fazia o elogio
do "Heroi da Conservação da Gorongosa", Dr. Baldeu Chande


Um dos momentos altos das cerimónias da Gala -  o elogio do Ministro do Turismo ao Dr. Baldeu Chande, 
distinguido com o prémio de "Heroi da Conservação da Gorongosa" 


O antigo Ministro do Turismo e actual Ministro da Juventude e Desportos, Fernando Sumbana, 
quando apresentava o antigo Ministro das Obras Públicas e Transportes, António Branco e elogiava a sua dedicação à causa da conservação da fauna  





O Dr. Mateus Mutemba apresentando um dos "Herois da Conservação da Gorongosa"


Dr. Bartolomeu Soto, destacado  dirigente da Fauna, no uso da palavra



Greg Carr apresentando um dos premiados, o Dr. Ricardo Guta




Dr. Ricardo Guta durante os agradecimentos


Stella Mendonça, cantora lírica moçambicana, que participou na apresentação da Gala e no momento musical


Momento musical muito aplaudido




Um dos "Herois da Conservação da Gorongosa"




Baldeu Chande (no centro) com dois outros Herois premiados na Gala




Foto da família Gorongosense




Casal Gonçalves com o conceituado músico e cantor português, Rui Veloso, 
 presentes na Gala


Casal Gonçalves e filha, Paula



Dr. Bartolomeu Soto e Celestino Gonçalves com o Heroi premiado, Baldeu Chande


Com o simpático Engº Pedro Mungura, heroi do reflorestamento da Serra da Gorongosa



Maputo, 30 de Nobembro de 2014

Celestino Gonçalves


terça-feira, 25 de novembro de 2014

19 - REUNIÃO NACIONAL DA ADMINISTRAÇÃO DAS ÁREAS DE CONSERVAÇÃO NA GORONGOSA

Recebemos do Departamento de Comunicação e Turismo do PNG a notícia que se segue:

Está a decorrer no Parque Nacional da Gorongosa a reunião
nacional da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC - Ministério do Turismo).
Aqui está uma foto da grande família da conservação e protecção da fauna de Moçambique.



Nosso comentário:

Em nome do Núcleo Coordenador do Grupo de Amigos da Gorongosa (GAG), felicito todos os participantes neste evento.

Pessoalmente, fico feliz por rever qui alguns amigos, verdadeiros conservadores e defensores do património faunístico (e florestal) deste país. Desejo a todos os participantes óptimo trabalho e muita coragem para enfrentarem a sua difícil tarefa, sabendo-se que a fauna está cada vez mais ameaçada devido ao incremento da caça furtiva, nomeadamente virada para as espécies cujos troféus rendem milhões aos traficantes que incentivam os abates.


Maputo, 25 de Novembro de 2014

Celestino Gonçalves

(Membro do Núcleo Coordenador do GAG)




domingo, 16 de novembro de 2014

18 - GORONGOSA PRESENTE NO CONGRESSO MUNDIAL DOS PARQUES

Conforme notícia e fotos acabadas  de receber do Dr. Vasco Galante, director de comunicação e turismo do Parque Nacional da Gorongosa, está a decorrer em Sydney, Austrália, o Congresso Mundial de Parques. 
A mesma fonte informa que ontem o Projecto de Restauração do Parque Nacional da Gorongosa foi apresentado, por Greg Carr, na sessão plenária e recebeu muitas atenções e genuíno interesse por parte dos delegados de todo o mundo (mais de 5.000 particiapantes).

O Grupo de Amigos da Gorongosa congratula-se por mais este grande sucesso de afirmação do valor da Gorongosa junto deste que é o mais importante congresso mundial respeitante aos Parques, organizado pela prestigiada União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Felicitamos pois os representantes de Moçambique responsáveis por tal presença, particularmente Greg Carr, financiador e co-responsável pelo Projecto acima referido.










As imagens acima mostram Greg Carr em três fases da sua intervenção





O QUE É A UICN E SEU VÍNCULO A MOÇAMBIQUE E À FUNDAÇÃO CARR
A Fundação Carr foi oficialmente aceite como membro da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) no Congresso Mundial para a Conservação, realizado em Barcelona, Espanha, no mês de Outubro de 2008. A UICN é a rede global ambiental mais antiga que conta com o maior número de membros; é uma união democrática de membros com mais de 1.000 governos e ONG’s e cerca de 11.000 cientistas voluntários em mais de 160 países.


A missão da UICN é influenciar, encorajar e dar assistência a sociedades por todo o mundo para a conservação da integridade e diversidade da natureza e assegurar que qualquer uso dos recursos naturais seja equitativo e ecologicamente sustentável. Tal como a UICN, o Projecto de Restauração do Parque Nacional da Gorongosa tem  por missão restaurar e proteger o vasto ecossistema da Gorongosa e providenciar desenvolvimento humano sustentável no Parque e na zona intermédia que o circunda. O projecto ambiciona uma região da Gorongosa ainda mais fantástica, onde ecossistemas diversos, sustentáveis, saudáveis e auto-suficientes se sustentam positivamente uns aos outros.
Durante 60 anos, a UICN liderou o desenvolvimento da ciência para a conservação e conhecimento sobre o tema e juntou governos, ONG’s, cientistas, empresas e organizações da comunidade para ajudar o mundo a decidir melhor quanto à conservação e desenvolvimento. A União para a Conservação também desenvolve e promove a mais avançada ciência da conservação, particularmente no que toca a espécies, ecossistemas, biodiversidade e o impacto destes nas vivências humanas. A UICN leva a cabo milhares de projectos de campo por todo o mundo a fim de melhor gerir ambientes naturais. Ultimamente, a UICN ajuda a implementar leis, políticas e melhores práticas mobilizando organizações, providenciando recursos, formando pessoal e monitorizando resultados.
O Projecto de Restauração do Parque Nacional da Gorongosa, liderado pelo Ministério do Turismo de Moçambique e pela Fundação Carr,  levou a que esta se tornasse membro da UICN para poder trabalhar com outros grupos a fim de encontrar soluções pragmáticas para os desafios prementes de conservação e desenvolvimento. Os cientistas e o pessoal do Parque são agora parte de uma vasta rede de apoio à investigação científica.    
O objectivo do Congresso Mundial para a Conservação da UICN era partilhar, formular e encontrar ideias, acções e soluções para um mundo diversificado e sustentável. O Presidente da Fundação, Greg Carr e os membros do pessoal Bill Wright, Amy Gambrill e Carlos Bento tomaram parte nas sessões de discussão e palestras no Congresso para a Conservação, que decorreu de 5 a 14 de Outubro de 2008 em Barcelona, Espanha, e aceitaram formalmente a qualidade de membro da UICN. Carlos Bento apresentou, numa mesa redonda de discussão, informação acerca do trabalho da Gorongosa na protecção contra a caça furtiva da população antílope. Bill Wright tomou parte na votação de questões prementes sobre conservação e da direcção da UICN, realizada na reunião da Assembleia, enquanto parte do programa. Os representantes da Fundação fizeram parte do grupo de mais de 8.000 líderes decisores mundiais para a área do desenvolvimento sustentável, que se reuniram para debater, partilhar, interligar-se, aprender, comprometer-se, votar e decidir. O congresso permitiu que o Projecto Gorongosa criasse ligações importantes com um grande número de outros profissionais da conservação de outras partes do mundo.  
 
publicado por Parque Nacional da Gorongosa às 11:36


16 de Novembro de 2014

Celestino Gonçalves




domingo, 9 de novembro de 2014

17 - GRUPO SONAE APOIA O PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA


GORONGOSA - APOIO DO GRUPO SONAE 









Gorongosa: Ajude a conservar um dos maiores parques de África

Por Sandra Gonçalves
Gorongosa: Ajude a conservar um dos maiores parques de África


O Continente vai disponibilizar, a partir de sexta-feira, uma colecção Note!, inspirada no Parque Nacional da Gorongosa, com o objectivo de angariar fundos de apoio à reconversão deste parque, no coração de Moçambique.



A colecção, constituída por artigos de papelaria e gifts com um design exclusivo que vão desde cadernos e capas, a postais, sacos, livros e lápis de colorir, vai estar disponível em todas as lojas Continente e Note! até Dezembro.


A superfície comercial quer unir os portugueses para fazerem parte da história de conservação de um dos maiores parques de África. Na compra destes produtos estará a contribuir para a conservação do Parque Nacional da Gorongosa. Por cada produto que comprar, o Continente irá contribuir com 0,50 euros para o Parque Nacional da Gorongosa.

Com uma área de cerca de 4.000 km2, o Parque Nacional da Gorongosa situa-se na zona limite sul do Grande Vale do Rift Africano, no coração de Moçambique. O parque protege e preserva a natureza e a vida selvagem e ajuda as comunidades locais.
O Parque Nacional da Gorongosa pretende tornar-se numa das maiores referências de protecção e preservação da vida animal de África.
(Fim de citação)

NOTA PESSOAL
Registamos com muito agrado esta feliz iniciativa do Grupo SONAE. 
Em nome do Núcleo Coordenador do Grupo de Amigos da Gorongosa (GAG), agradeço à direcção deste importante polo comercial esta tão simpática atitude, que vem na sequência de outras anteriores para promover a Gorongosa  e apoiar monetáriamente o projecto de restauração ali em curso com grande sucesso.

Novembro de 2014
Celestino Gonçalves
(Membro do Núcleo Coordenador do  GAG)




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

16 - FANTÁSTICA RECUPERAÇÃO DAS ESPÉCIES NA GORONGOSA




O censo anual de fauna bravia prossegue e entre muitas das fotos seleccionámos esta que nos mostra uma grande manada de elandes (ou tucas), mais precisamente 84!
Obrigado (Foto de Marc Stalmans)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

15 - RELATO DO DR. ALBANO CORTEZ, ÚLTIMO ADMINISTRADOR DO PNG DO TEMPO COLONIAL






RELATO DO DR. ALBANO CORTEZ, 
ANTIGO ADMINISTRADOR -RESIDENTE DESTE FAMOSO SANTUÁRIO
DA FAUNA BRAVIA DE MOÇAMBIQUE


(Outubro de 1972 a Julho de 1973)



Tendo em vista a recolha de informação para um Centro Interpretativo a edificar no Parque Nacional da Gorongosa, foi-me solicitado por Vasco Galante, seu actual Director de Comunicação, que escrevesse algo sobre a minha vivência naquele Parque, por ter sido o último Administrador-Residente do tempo colonial (Outubro de 1972 a Julho de 1973).

Três acontecimentos marcaram de forma indelével e por distintas razões o já longínquo ano de 1972.

O nascimento do meu primeiro filho, a conclusão da licenciatura em medicina-veterinária e a colocação no Parque Nacional da Gorongosa como Administrador-Residente.

Após a conclusão do curso em Agosto de 1972, apresentei-me na Direcção Provincial dos Serviços de Veterinária, onde tomei posse como medico-veterinário de 2ª classe.

Começou aí uma longa carreira de 37 anos e meio como funcionário público.
Por determinação do Director daqueles serviços, Digmo Dr. Fernando Cardoso Paisana, pessoa de quem guardo as melhores recordações, fui colocado, com alguma surpresa, no P.N.G., como Administrador-Residente, para ocupar a vaga deixada em aberto pelo dr. Francisco Prestes Romão, que abandonara aquele lugar uns meses antes.

O Parque encontrava-se sem Administrador e havia a preocupação por parte do Dr.Paisana em preencher rapidamente essa vaga.
Estabelecia o Regulamento do P.N.G. no artigo 3º, parágrafo único, aprovado pelo Diploma Legislativo de 21 de Maio de 1967 o seguinte:

-“Superintende nos Serviços do Parque um Administrador-Residente, que actua em conformidade com as directrizes dimanadas da Direcção Provincial do Serviços de Veterinária” e ainda, “que o cargo de Administrador-Residente será desempenhado por médico-veterinário ou técnico superior do quadro dos Serviços de Veterinária “.

Os Serviços de Veterinária eram assim responsáveis pela administração do Parque, com todas as competências e deveres inerentes.

A construção e manutenção de infra-estruturas do Parque, bem como a fiscalização das suas fronteiras eram da exclusiva responsabilidade da sua administração.

Tinha como receita a cobrança das entradas no Parque e os proventos da concessão da sua exploração turística à Safrique, empresa de turismo sedeada na Beira.

Não fiquei contrariado com tal colocação apesar de saber que iria trabalhar em regime de exclusividade, com um vencimento mediano e num campo de trabalho totalmente novo para mim, contrariamente ao que acontecia com outras vagas possíveis na altura, que permitiam a acumulação de funções públicas e privadas, em áreas ligadas à bovinicultura.

A Gorongosa interessava-me por ficar perto da Beira, cidade para onde fui viver com um ano de idade, onde estudei, onde viviam os meus pais e onde tinha os meus amigos. Nasceram na Beira a minha mãe, a minha mulher e os meus dois filhos.

Apresentei-me no Chitengo, como Administrador-Residente nos primeiros dias de Outubro de 1972, com 23 anos de idade.

Não me arrependi. Iniciei assim um período único e irrepetível na minha vida. Eu, um jovem recém-formado, de repente, passei a residir e a dirigir uma das melhores reservas naturais do mundo, um verdadeiro santuário, em contacto directo e permanente com toda uma variedade de espécies selvagens, num parque com uma diversidade única de ecossistemas.

Sabia que iria interromper a minha prestação de serviços dez meses depois, em Agosto de 1973, por ter nessa altura que me apresentar no Distrito de Recrutamento de Boane, para cumprimento do serviço militar obrigatório, mas, apesar disso, coloquei todo o meu empenho nas responsabilidades que me foram cometidas.

Foi minha preocupação inicial conhecer o Parque em toda a sua dimensão, identificar as diferentes espécies que o povoavam e, obviamente, conhecer todos os problemas com que se debatia a sua administração.

Trabalhava no Parque em 1972, um sul-africano, o eco-biologista de renome Kenneth Tinley. Ofereceu-me alguns livros técnicos e deu-me a conhecer um estudo bem fundamentado que apresentara às autoridades competentes em que era proposta uma nova área para o Parque, que incluiria a serra da Gorongosa, fonte de água imprescindível para a sobrevivência das suas espécies e que se encontrava em processo de erosão devido a culturas agrícolas itinerantes das populações ali residentes. Um problema para ser resolvido por políticos.

A caça furtiva era outro dos problemas que, com frequência, éramos confrontados. Vi vários animais estropiados em consequência das armadilhas colocadas. Faziam-se várias apreensões de armas e armadilhas.

O Parque estava rodeado por uma cintura humana asfixiante que tinha a tendência de crescer para o seu interior, onde encontrava meios de subsistência e uma inesgotável fonte de alimento.

Além desta caça furtiva, artesanal e crónica, havia outra esporádica, mas mais profissional, mais bem armada e porventura mais mortífera, protagonizada por caçadores que se deslocavam em veículos todo o terreno.

Recordo-me de ver num perímetro de cerca de 200 metros quatro, elefantes recentemente abatidos, com os membros amputados e sem as respectivas presas! Havia também neste cenário dantesco algumas zebras mortas e esfoladas.

Os guardas de parque, inexcedíveis na sua missão de fiscalização, faziam caminhadas dignas do conhecimento de hinógrafos, mas nem assim conseguiam evitar a caça furtiva numa área imensa sem vedações e com fronteiras de centenas de quilómetros.

Sob o ponto de vista meramente técnico e condicionado pelo pouco tempo que ali passaria, limitei-me a anestesiar e a marcar alguns animais, entre elefantes, búfalos, bois-cavalos e leões, e a seguir os seus movimentos.

Acompanhei um estudo que estava a ser efectuado por K.Tinley sobre uma população de hipopótamos que vivia numa lagoa, situada entre o Chitengo e o portão de entrada, em situação de “overcrowding”. K.Tinley através de estudos comparativos chegou à conclusão que essa população se encontrava em declínio pela contagem do número de sub-adultos.

No âmbito de um programa de intercâmbio, assisti e participei juntamente com o fiscal de caça Celestino Gonçalves, numa captura de gondongas efectuada com a ajuda de um helicóptero, por uma equipa de rodesianos. As mesmas foram posteriormente transferidas para uma reserva daquele país.

Recordo-me igualmente de ter diagnosticado um caso de tuberculose num fígado de um búfalo com lesões suspeitas, mais tarde confirmado em laboratório.

O Parque recebia visitantes de todas as partes do mundo, alguns ilustres.
O número de visitantes atingia naquela altura o seu pico. Cerca de 20.000 por ano.
A densidade animal do Parque impressionava.

Ninguém ficava indiferente àquele espectáculo de harmonia e beleza imensa. Uma profusão de cores e cheiros que nos tocavam profundamente.

A segunda fase da minha permanência na Gorongosa foi fértil, mas noutro tipo de acontecimentos, que também fazem parte do acervo histórico do Parque e que iriam condicionar todo o seu futuro.

A onda de libertação da África sub-sahariana iniciada com Nkrumah no Gana em 1957, chegou em 1973 ao Parque Nacional da Gorongosa.

Começaram a ser frequentes os relatos de encontros casuais entre os guardas de parque, na sua missão de fiscalização, e os guerrilheiros da Frelimo.

Numa coutada vizinha, no Nhamacala, um neurocirurgião espanhol foi morto durante um safari.

Um dos nossos funcionários, de nome Bruno, responsável pelo acampamento de Mussapassua, foi raptado e posteriormente morto.

O problema agora passava a ser o da segurança, não dos animais, mas dos funcionários do Parque e dos turistas que o visitavam.

Para reforço da segurança, um pelotão de paraquedistas passou a viver no Chitengo.

A culminar todo este clima de insegurança, o Chitengo, cheio de turistas, foi atacado no dia 18 de Julho, enquanto decorria o jantar no restaurante do Parque. Recordo-me de ver os fogachos das Kalashnikov entre a escuridão que nos circundava. Ninguém se feriu em consequência desse ataque.

Nessa noite, telefonei ao governador da Beira, coronel Sousa Teles, a reportar o ataque e a solicitar instruções sobre o eventual encerramento do Parque aos turistas.

O Governador deu-me instruções expressas para não o fechar e para mandar tapar os impactos das balas visíveis nas paredes dos edifícios atingidos.

No dia seguinte, na picada entre o Chitengo e o portão de entrada, num acidente provocado pelo despiste de um Unimog morreram 5 paraquedistas. Havia pelo menos dois feridos graves que foram evacuados de helicóptero para a Beira.

Nesse mesmo dia a maior parte dos turistas abandonou o Parque.

A segurança do mesmo ficou, definitivamente, posta em causa. Nada passou a ser como dantes.

O número de turistas baixou consideravelmente. O ambiente de trabalho, com as preocupações de segurança, passou a ser insuportável.

Conforme já estava anteriormente previsto, 13 dias depois do ataque ao Chitengo, no dia 31 de Julho de 1973, terminei a minha prestação de serviço como Administrador-Residente e deixei o Parque Nacional da Gorongosa.

Anos mais tarde, em Novembro de 1996, desloquei-me a Moçambique para participar num Congresso de Medicina-Veterinária realizado em Maputo.

Aproveitando essa deslocação fiz questão de visitar a Beira e, como não podia deixar de ser, o Parque Nacional da Gorongosa, na companhia de dois amigos que ainda hoje vivem nesta cidade, o Chico Ivo e o Rui Basílio.

Vinte e três anos depois, tive a oportunidade e a alegria de rever dois dos funcionários que trabalharam comigo, o Castigo Mamunanculo e o Batage Vasco.
Fiquei impressionado com a destruição do Chitengo, ocorrida durante a guerra civil moçambicana, mas pior, muito pior, foi a matança que aconteceu, autêntico extermínio de animais que, durante séculos ali viveram em equilíbrio no seu habitat natural. Um património único de difícil recuperação.

Numa deslocação até à “casa dos leões” vi um pequeno grupo de gondongas assustadas, uma bauala e alguns macacos. Nada mais!

O responsável do parque na altura, disse-me que já se começava a registar algum repovoamento animal e que “as espécies estavam lá”.

Compreendi então, quão difícil e moroso seria este processo, especialmente para as espécies de ciclo reprodutivo mais longo, se não acontecesse algo de extraordinário.

O extraordinário aconteceu. Como que enviado por mão divina, apareceu Greg Carr.

Tenho acompanhado com curiosidade e interesse a sua actividade e da sua equipa na reabilitação do Parque. É fácil adivinhar as dificuldades que têm pela frente. Penso que ele e os seus colaboradores, com diplomacia e inteligência, irão atingir o difícil objectivo a que se propuseram.

Estou surpreendido com os progressos alcançados e vejo com satisfação o total empenho das autoridades moçambicanas a nível local, regional e central, na tarefa ingente de recuperação do Parque.

Esta semana reuni em álbum digital algumas fotografias que tirei durante o tempo em que trabalhei na Gorongosa. Terei todo o gosto em oferecer este registo fotográfico ao seu Centro Interpretativo.

Continuo a ser um dos “amigos da Gorongosa” e desejo a todos os que por ela trabalham os maiores sucessos. Bem hajam!

Viana do Castelo, 28 de Junho de 2009.
Albano Cortez
(Médico Veterinário)






O MEU COMENTÁRIO






Este emocionante relato do Dr. Albano Cortez, é sem dúvida dos testemunhos mais fieis e objectivos que até hoje vieram a lume sobre o Parque Nacional da Gorongosa do período colonial, justamente porque descreve com profunda clareza, conhecimento de causa e sem subterfúgios, uma fase crítica da sua história em que o maravilhoso santuário da vida bravia de Moçambique foi alvo das primeiras acções por parte da guerrilha nacionalista que lutava pela independência do território e que ditaram o início da desintegração de todas as suas actividades normais.

O jovem Banito (como era e ainda é tratado pelos familiares e amigos), viveu intensamente esse período e sendo embora, na altura, um novato com formação essencialmente virada para os animais domésticos, depressa se apaixonou pelo Parque e pela fauna bravia, dedicando-se com grande entusiasmo à sua preservação durante o tempo que ali trabalhou. Teve a felicidade de conhecer o Parque na sua plena pujança, repleto de animais das mais variadas espécies, que estudou apoiado por um dos melhores cientistas de África que ali trabalhava desde 1968, o eco-biologista Kenneth Tinley.

Este seu apontamento, embora sucinto e elaborado com a finalidade de servir de guião à entrevista que o autor concedeu para o Centro Interpretativo do Parque, contém dados precisosos relativos a um período muito conturbado que se vivia no território e que inevitavelmente viria a atingir este famoso santuário bravio na fase final da colonização portuguesa que culminou com a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975.
Contudo, foi durante a guerra civil no país (1977/1992) e nos dois anos subsequententes ao acordo de paz (1992/1993) que o Parque foi completamente destruído e os seus animais abatidos indiscriminadamente por militares e civis, tendo as principais espécies, que se contavam por dezenas de milhares, como elefantes, búfalos, elandes, hipopótamos, bois-cavalo, zebras, cudos, inhalas, impalas, imbabalas, changos, inhacosos, leões, crocodilos, leopardos, facoceros, oribis, palapalas e gondongas, ficado reduzidas a uma escassa percentagem da ordem dos 3 a 5 por cento dos efectivos que se registavam em 1972, ano em que ali chegou o Dr. Albano Cortez! Uma das espécies mais afectadas - o búfalo - é exemplo flagrante e arrepiante dos massacres que foram perpetrados, pois os seus efectivos rondavam os 14.000 e em 1994 não restava um único exemplar! Actualmente verifica-se o regresso de pouco mais de uma centena e é das espécies que mereceu prioridade na reintrodução iniciada em 2006, vindas da África do Sul.

O Dr. Albano Cortez, como todos aqueles que, como eu próprio, tiveram o privilégio de trabalhar no famoso Parque, tem boas razões para se sentir "Amigo da Gorongosa". Disso tem dado as mais diversas provas, como fornecendo material fotográfico e dados históricos à direcção actual do projecto de recuperação do PNG; a sua regular presença nos eventos em que o Parque tem participado nos últimos anos, como são as Mostras na Bolsa de Turismo de Lisboa e a Conferência sobre Desenvolvimento e Ambiente de 2009 na antiga FIL; os convívios com antigos colegas e novos "Amigos", etc.

Pelo seu excelente trabalho biográfico e histórico, cumprimento e felicito o amigo Dr. Albano Cortez, um dos "históricos" do Parque Nacional da Gorongosa com quem tive o prazer de trabalhar, que assim contribuiu para a história do mesmo Parque que agora está a ser feita pela nova direcção que desde 2005 se empenha generosa e eficientemente na recuperação de tão valioso e importante património mundial!


ALGUMAS IMAGENS A PROPÓSITO

A equipa rodesiana e colaboradores moçambicanos que em 1973 efectuou uma grande operação de captura de gondongas em KangaNthole (junto ao PNG) destinadas à Reserva de Ghonarazow (Zimbabwe) e Jardim Zoológico de Maputo. O Dr. Albano Cortez encontra-se a meu lado, de joelhos (de roupa clara). 
O grupo de colaboradores do PNG que participou na "Operação Gondonga". O momento era de espera em local estratégico da operação. Da esqª para a dirª: Joaquim Rato Martins, Dr. Albano Cortez (a coçar o braço direito para aliviar a dor de uma ferroada de mosca tsé-tsé), Celestino Gonçalves e Dr. Armando Rosinha. Atrás, noutra viatura, Luis Fernandes, adjunto da administração do Parque, que também participou com o seu auxiliar Figueira Meque. 


Castigo Mamunanculo e Batage Vasco, os únicos moçambicanos do staff do Parque do tempo colonial que resistiram às sucessivas catástrofes ocorridas no Parque durante a guerra civil e que regressaram em 1994. O Dr. Albano Cortez teve a satisfação de encontrar estes fieis e excelentes colaboradores no Chitengo, em 1996. Eu tive o mesmo prazer em Janeiro de 2000, quando fiz esta fotografia, mas em 2006, quando lá voltei, já os dois tinham deixado este mundo!


O grupo de "Amigos da Gorongosa" que em Janeiro último compareceu no pavilhão da Gorongosa na BTL. Da Esqª para a Dirª: Casal Romão (Dr.) (este filho do Dr. Francisco Romão que foi o primeiro administrador-residente do PNG e que o Dr. Albano Cortez foi substituir em 1972); Dr. Albano Cortez; Celestino Gonçalves; Vasco Galante (atrás) - o dinamico director do turismo e comunicação do PNG; Lurdes Gonçalves; Drª Maria de São José Coimbra; as irmãs Inês e Zilda Frias (ex-professoras primárias do PNG) e Luís Fernandes.




Celestino Gonçalves, Greg Carr e Dr. Albano Cortez, no interior do pavilhão, na BTL, onde foi exibido o filme "AFRICA´S LOST EDEN" - Paraíso Perdido de África -, o extraordinário documentário da NGT sobre o PNG que teve a sua ante-estreia em Maputo no mês de Dezembro último e a estreia a nível mundial na capital portuguesa no passado mês de Janeiro. 



No pavilhão do PNG da BTL:
Dr. Albano Cortez, Celestino Gonçalves e Dr. Manuel Romão

No pavilhão de Moçambique onde a Mostra do Parque esteve inserida

Dr. Vasco Galante, Dr. Albano Cortez e Drª Manuela Vilhena, em conversa após a brilhante exposição sobre o PNG apresentada pelo primeiro na Conferência "Desenvolvimento e Ambiente", realizada na antiga FIL, em Abril do ano findo. 


Celestino Gonçalves, Drª Maria de S. José, Rita Galvão (outra "Amiga da Gorongosa" que neste momento se encontra na Tanzania, no famoso Parque do Serengueti, onde o marido cumpre um contrato de piloto de balões) e Dr. Albano Cortez. Encontro em Lisboa em Abril do ano findo, a seguir à Conferência "Desenvolvimento e Ambiente"



Saudações amigas!


Amor - Leiria, 23 de Fevereiro de 2010


Celestino Gonçalves