quarta-feira, 29 de outubro de 2014

16 - FANTÁSTICA RECUPERAÇÃO DAS ESPÉCIES NA GORONGOSA




O censo anual de fauna bravia prossegue e entre muitas das fotos seleccionámos esta que nos mostra uma grande manada de elandes (ou tucas), mais precisamente 84!
Obrigado (Foto de Marc Stalmans)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

15 - RELATO DO DR. ALBANO CORTEZ, ÚLTIMO ADMINISTRADOR DO PNG DO TEMPO COLONIAL






RELATO DO DR. ALBANO CORTEZ, 
ANTIGO ADMINISTRADOR -RESIDENTE DESTE FAMOSO SANTUÁRIO
DA FAUNA BRAVIA DE MOÇAMBIQUE


(Outubro de 1972 a Julho de 1973)



Tendo em vista a recolha de informação para um Centro Interpretativo a edificar no Parque Nacional da Gorongosa, foi-me solicitado por Vasco Galante, seu actual Director de Comunicação, que escrevesse algo sobre a minha vivência naquele Parque, por ter sido o último Administrador-Residente do tempo colonial (Outubro de 1972 a Julho de 1973).

Três acontecimentos marcaram de forma indelével e por distintas razões o já longínquo ano de 1972.

O nascimento do meu primeiro filho, a conclusão da licenciatura em medicina-veterinária e a colocação no Parque Nacional da Gorongosa como Administrador-Residente.

Após a conclusão do curso em Agosto de 1972, apresentei-me na Direcção Provincial dos Serviços de Veterinária, onde tomei posse como medico-veterinário de 2ª classe.

Começou aí uma longa carreira de 37 anos e meio como funcionário público.
Por determinação do Director daqueles serviços, Digmo Dr. Fernando Cardoso Paisana, pessoa de quem guardo as melhores recordações, fui colocado, com alguma surpresa, no P.N.G., como Administrador-Residente, para ocupar a vaga deixada em aberto pelo dr. Francisco Prestes Romão, que abandonara aquele lugar uns meses antes.

O Parque encontrava-se sem Administrador e havia a preocupação por parte do Dr.Paisana em preencher rapidamente essa vaga.
Estabelecia o Regulamento do P.N.G. no artigo 3º, parágrafo único, aprovado pelo Diploma Legislativo de 21 de Maio de 1967 o seguinte:

-“Superintende nos Serviços do Parque um Administrador-Residente, que actua em conformidade com as directrizes dimanadas da Direcção Provincial do Serviços de Veterinária” e ainda, “que o cargo de Administrador-Residente será desempenhado por médico-veterinário ou técnico superior do quadro dos Serviços de Veterinária “.

Os Serviços de Veterinária eram assim responsáveis pela administração do Parque, com todas as competências e deveres inerentes.

A construção e manutenção de infra-estruturas do Parque, bem como a fiscalização das suas fronteiras eram da exclusiva responsabilidade da sua administração.

Tinha como receita a cobrança das entradas no Parque e os proventos da concessão da sua exploração turística à Safrique, empresa de turismo sedeada na Beira.

Não fiquei contrariado com tal colocação apesar de saber que iria trabalhar em regime de exclusividade, com um vencimento mediano e num campo de trabalho totalmente novo para mim, contrariamente ao que acontecia com outras vagas possíveis na altura, que permitiam a acumulação de funções públicas e privadas, em áreas ligadas à bovinicultura.

A Gorongosa interessava-me por ficar perto da Beira, cidade para onde fui viver com um ano de idade, onde estudei, onde viviam os meus pais e onde tinha os meus amigos. Nasceram na Beira a minha mãe, a minha mulher e os meus dois filhos.

Apresentei-me no Chitengo, como Administrador-Residente nos primeiros dias de Outubro de 1972, com 23 anos de idade.

Não me arrependi. Iniciei assim um período único e irrepetível na minha vida. Eu, um jovem recém-formado, de repente, passei a residir e a dirigir uma das melhores reservas naturais do mundo, um verdadeiro santuário, em contacto directo e permanente com toda uma variedade de espécies selvagens, num parque com uma diversidade única de ecossistemas.

Sabia que iria interromper a minha prestação de serviços dez meses depois, em Agosto de 1973, por ter nessa altura que me apresentar no Distrito de Recrutamento de Boane, para cumprimento do serviço militar obrigatório, mas, apesar disso, coloquei todo o meu empenho nas responsabilidades que me foram cometidas.

Foi minha preocupação inicial conhecer o Parque em toda a sua dimensão, identificar as diferentes espécies que o povoavam e, obviamente, conhecer todos os problemas com que se debatia a sua administração.

Trabalhava no Parque em 1972, um sul-africano, o eco-biologista de renome Kenneth Tinley. Ofereceu-me alguns livros técnicos e deu-me a conhecer um estudo bem fundamentado que apresentara às autoridades competentes em que era proposta uma nova área para o Parque, que incluiria a serra da Gorongosa, fonte de água imprescindível para a sobrevivência das suas espécies e que se encontrava em processo de erosão devido a culturas agrícolas itinerantes das populações ali residentes. Um problema para ser resolvido por políticos.

A caça furtiva era outro dos problemas que, com frequência, éramos confrontados. Vi vários animais estropiados em consequência das armadilhas colocadas. Faziam-se várias apreensões de armas e armadilhas.

O Parque estava rodeado por uma cintura humana asfixiante que tinha a tendência de crescer para o seu interior, onde encontrava meios de subsistência e uma inesgotável fonte de alimento.

Além desta caça furtiva, artesanal e crónica, havia outra esporádica, mas mais profissional, mais bem armada e porventura mais mortífera, protagonizada por caçadores que se deslocavam em veículos todo o terreno.

Recordo-me de ver num perímetro de cerca de 200 metros quatro, elefantes recentemente abatidos, com os membros amputados e sem as respectivas presas! Havia também neste cenário dantesco algumas zebras mortas e esfoladas.

Os guardas de parque, inexcedíveis na sua missão de fiscalização, faziam caminhadas dignas do conhecimento de hinógrafos, mas nem assim conseguiam evitar a caça furtiva numa área imensa sem vedações e com fronteiras de centenas de quilómetros.

Sob o ponto de vista meramente técnico e condicionado pelo pouco tempo que ali passaria, limitei-me a anestesiar e a marcar alguns animais, entre elefantes, búfalos, bois-cavalos e leões, e a seguir os seus movimentos.

Acompanhei um estudo que estava a ser efectuado por K.Tinley sobre uma população de hipopótamos que vivia numa lagoa, situada entre o Chitengo e o portão de entrada, em situação de “overcrowding”. K.Tinley através de estudos comparativos chegou à conclusão que essa população se encontrava em declínio pela contagem do número de sub-adultos.

No âmbito de um programa de intercâmbio, assisti e participei juntamente com o fiscal de caça Celestino Gonçalves, numa captura de gondongas efectuada com a ajuda de um helicóptero, por uma equipa de rodesianos. As mesmas foram posteriormente transferidas para uma reserva daquele país.

Recordo-me igualmente de ter diagnosticado um caso de tuberculose num fígado de um búfalo com lesões suspeitas, mais tarde confirmado em laboratório.

O Parque recebia visitantes de todas as partes do mundo, alguns ilustres.
O número de visitantes atingia naquela altura o seu pico. Cerca de 20.000 por ano.
A densidade animal do Parque impressionava.

Ninguém ficava indiferente àquele espectáculo de harmonia e beleza imensa. Uma profusão de cores e cheiros que nos tocavam profundamente.

A segunda fase da minha permanência na Gorongosa foi fértil, mas noutro tipo de acontecimentos, que também fazem parte do acervo histórico do Parque e que iriam condicionar todo o seu futuro.

A onda de libertação da África sub-sahariana iniciada com Nkrumah no Gana em 1957, chegou em 1973 ao Parque Nacional da Gorongosa.

Começaram a ser frequentes os relatos de encontros casuais entre os guardas de parque, na sua missão de fiscalização, e os guerrilheiros da Frelimo.

Numa coutada vizinha, no Nhamacala, um neurocirurgião espanhol foi morto durante um safari.

Um dos nossos funcionários, de nome Bruno, responsável pelo acampamento de Mussapassua, foi raptado e posteriormente morto.

O problema agora passava a ser o da segurança, não dos animais, mas dos funcionários do Parque e dos turistas que o visitavam.

Para reforço da segurança, um pelotão de paraquedistas passou a viver no Chitengo.

A culminar todo este clima de insegurança, o Chitengo, cheio de turistas, foi atacado no dia 18 de Julho, enquanto decorria o jantar no restaurante do Parque. Recordo-me de ver os fogachos das Kalashnikov entre a escuridão que nos circundava. Ninguém se feriu em consequência desse ataque.

Nessa noite, telefonei ao governador da Beira, coronel Sousa Teles, a reportar o ataque e a solicitar instruções sobre o eventual encerramento do Parque aos turistas.

O Governador deu-me instruções expressas para não o fechar e para mandar tapar os impactos das balas visíveis nas paredes dos edifícios atingidos.

No dia seguinte, na picada entre o Chitengo e o portão de entrada, num acidente provocado pelo despiste de um Unimog morreram 5 paraquedistas. Havia pelo menos dois feridos graves que foram evacuados de helicóptero para a Beira.

Nesse mesmo dia a maior parte dos turistas abandonou o Parque.

A segurança do mesmo ficou, definitivamente, posta em causa. Nada passou a ser como dantes.

O número de turistas baixou consideravelmente. O ambiente de trabalho, com as preocupações de segurança, passou a ser insuportável.

Conforme já estava anteriormente previsto, 13 dias depois do ataque ao Chitengo, no dia 31 de Julho de 1973, terminei a minha prestação de serviço como Administrador-Residente e deixei o Parque Nacional da Gorongosa.

Anos mais tarde, em Novembro de 1996, desloquei-me a Moçambique para participar num Congresso de Medicina-Veterinária realizado em Maputo.

Aproveitando essa deslocação fiz questão de visitar a Beira e, como não podia deixar de ser, o Parque Nacional da Gorongosa, na companhia de dois amigos que ainda hoje vivem nesta cidade, o Chico Ivo e o Rui Basílio.

Vinte e três anos depois, tive a oportunidade e a alegria de rever dois dos funcionários que trabalharam comigo, o Castigo Mamunanculo e o Batage Vasco.
Fiquei impressionado com a destruição do Chitengo, ocorrida durante a guerra civil moçambicana, mas pior, muito pior, foi a matança que aconteceu, autêntico extermínio de animais que, durante séculos ali viveram em equilíbrio no seu habitat natural. Um património único de difícil recuperação.

Numa deslocação até à “casa dos leões” vi um pequeno grupo de gondongas assustadas, uma bauala e alguns macacos. Nada mais!

O responsável do parque na altura, disse-me que já se começava a registar algum repovoamento animal e que “as espécies estavam lá”.

Compreendi então, quão difícil e moroso seria este processo, especialmente para as espécies de ciclo reprodutivo mais longo, se não acontecesse algo de extraordinário.

O extraordinário aconteceu. Como que enviado por mão divina, apareceu Greg Carr.

Tenho acompanhado com curiosidade e interesse a sua actividade e da sua equipa na reabilitação do Parque. É fácil adivinhar as dificuldades que têm pela frente. Penso que ele e os seus colaboradores, com diplomacia e inteligência, irão atingir o difícil objectivo a que se propuseram.

Estou surpreendido com os progressos alcançados e vejo com satisfação o total empenho das autoridades moçambicanas a nível local, regional e central, na tarefa ingente de recuperação do Parque.

Esta semana reuni em álbum digital algumas fotografias que tirei durante o tempo em que trabalhei na Gorongosa. Terei todo o gosto em oferecer este registo fotográfico ao seu Centro Interpretativo.

Continuo a ser um dos “amigos da Gorongosa” e desejo a todos os que por ela trabalham os maiores sucessos. Bem hajam!

Viana do Castelo, 28 de Junho de 2009.
Albano Cortez
(Médico Veterinário)






O MEU COMENTÁRIO






Este emocionante relato do Dr. Albano Cortez, é sem dúvida dos testemunhos mais fieis e objectivos que até hoje vieram a lume sobre o Parque Nacional da Gorongosa do período colonial, justamente porque descreve com profunda clareza, conhecimento de causa e sem subterfúgios, uma fase crítica da sua história em que o maravilhoso santuário da vida bravia de Moçambique foi alvo das primeiras acções por parte da guerrilha nacionalista que lutava pela independência do território e que ditaram o início da desintegração de todas as suas actividades normais.

O jovem Banito (como era e ainda é tratado pelos familiares e amigos), viveu intensamente esse período e sendo embora, na altura, um novato com formação essencialmente virada para os animais domésticos, depressa se apaixonou pelo Parque e pela fauna bravia, dedicando-se com grande entusiasmo à sua preservação durante o tempo que ali trabalhou. Teve a felicidade de conhecer o Parque na sua plena pujança, repleto de animais das mais variadas espécies, que estudou apoiado por um dos melhores cientistas de África que ali trabalhava desde 1968, o eco-biologista Kenneth Tinley.

Este seu apontamento, embora sucinto e elaborado com a finalidade de servir de guião à entrevista que o autor concedeu para o Centro Interpretativo do Parque, contém dados precisosos relativos a um período muito conturbado que se vivia no território e que inevitavelmente viria a atingir este famoso santuário bravio na fase final da colonização portuguesa que culminou com a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975.
Contudo, foi durante a guerra civil no país (1977/1992) e nos dois anos subsequententes ao acordo de paz (1992/1993) que o Parque foi completamente destruído e os seus animais abatidos indiscriminadamente por militares e civis, tendo as principais espécies, que se contavam por dezenas de milhares, como elefantes, búfalos, elandes, hipopótamos, bois-cavalo, zebras, cudos, inhalas, impalas, imbabalas, changos, inhacosos, leões, crocodilos, leopardos, facoceros, oribis, palapalas e gondongas, ficado reduzidas a uma escassa percentagem da ordem dos 3 a 5 por cento dos efectivos que se registavam em 1972, ano em que ali chegou o Dr. Albano Cortez! Uma das espécies mais afectadas - o búfalo - é exemplo flagrante e arrepiante dos massacres que foram perpetrados, pois os seus efectivos rondavam os 14.000 e em 1994 não restava um único exemplar! Actualmente verifica-se o regresso de pouco mais de uma centena e é das espécies que mereceu prioridade na reintrodução iniciada em 2006, vindas da África do Sul.

O Dr. Albano Cortez, como todos aqueles que, como eu próprio, tiveram o privilégio de trabalhar no famoso Parque, tem boas razões para se sentir "Amigo da Gorongosa". Disso tem dado as mais diversas provas, como fornecendo material fotográfico e dados históricos à direcção actual do projecto de recuperação do PNG; a sua regular presença nos eventos em que o Parque tem participado nos últimos anos, como são as Mostras na Bolsa de Turismo de Lisboa e a Conferência sobre Desenvolvimento e Ambiente de 2009 na antiga FIL; os convívios com antigos colegas e novos "Amigos", etc.

Pelo seu excelente trabalho biográfico e histórico, cumprimento e felicito o amigo Dr. Albano Cortez, um dos "históricos" do Parque Nacional da Gorongosa com quem tive o prazer de trabalhar, que assim contribuiu para a história do mesmo Parque que agora está a ser feita pela nova direcção que desde 2005 se empenha generosa e eficientemente na recuperação de tão valioso e importante património mundial!


ALGUMAS IMAGENS A PROPÓSITO

A equipa rodesiana e colaboradores moçambicanos que em 1973 efectuou uma grande operação de captura de gondongas em KangaNthole (junto ao PNG) destinadas à Reserva de Ghonarazow (Zimbabwe) e Jardim Zoológico de Maputo. O Dr. Albano Cortez encontra-se a meu lado, de joelhos (de roupa clara). 
O grupo de colaboradores do PNG que participou na "Operação Gondonga". O momento era de espera em local estratégico da operação. Da esqª para a dirª: Joaquim Rato Martins, Dr. Albano Cortez (a coçar o braço direito para aliviar a dor de uma ferroada de mosca tsé-tsé), Celestino Gonçalves e Dr. Armando Rosinha. Atrás, noutra viatura, Luis Fernandes, adjunto da administração do Parque, que também participou com o seu auxiliar Figueira Meque. 


Castigo Mamunanculo e Batage Vasco, os únicos moçambicanos do staff do Parque do tempo colonial que resistiram às sucessivas catástrofes ocorridas no Parque durante a guerra civil e que regressaram em 1994. O Dr. Albano Cortez teve a satisfação de encontrar estes fieis e excelentes colaboradores no Chitengo, em 1996. Eu tive o mesmo prazer em Janeiro de 2000, quando fiz esta fotografia, mas em 2006, quando lá voltei, já os dois tinham deixado este mundo!


O grupo de "Amigos da Gorongosa" que em Janeiro último compareceu no pavilhão da Gorongosa na BTL. Da Esqª para a Dirª: Casal Romão (Dr.) (este filho do Dr. Francisco Romão que foi o primeiro administrador-residente do PNG e que o Dr. Albano Cortez foi substituir em 1972); Dr. Albano Cortez; Celestino Gonçalves; Vasco Galante (atrás) - o dinamico director do turismo e comunicação do PNG; Lurdes Gonçalves; Drª Maria de São José Coimbra; as irmãs Inês e Zilda Frias (ex-professoras primárias do PNG) e Luís Fernandes.




Celestino Gonçalves, Greg Carr e Dr. Albano Cortez, no interior do pavilhão, na BTL, onde foi exibido o filme "AFRICA´S LOST EDEN" - Paraíso Perdido de África -, o extraordinário documentário da NGT sobre o PNG que teve a sua ante-estreia em Maputo no mês de Dezembro último e a estreia a nível mundial na capital portuguesa no passado mês de Janeiro. 



No pavilhão do PNG da BTL:
Dr. Albano Cortez, Celestino Gonçalves e Dr. Manuel Romão

No pavilhão de Moçambique onde a Mostra do Parque esteve inserida

Dr. Vasco Galante, Dr. Albano Cortez e Drª Manuela Vilhena, em conversa após a brilhante exposição sobre o PNG apresentada pelo primeiro na Conferência "Desenvolvimento e Ambiente", realizada na antiga FIL, em Abril do ano findo. 


Celestino Gonçalves, Drª Maria de S. José, Rita Galvão (outra "Amiga da Gorongosa" que neste momento se encontra na Tanzania, no famoso Parque do Serengueti, onde o marido cumpre um contrato de piloto de balões) e Dr. Albano Cortez. Encontro em Lisboa em Abril do ano findo, a seguir à Conferência "Desenvolvimento e Ambiente"



Saudações amigas!


Amor - Leiria, 23 de Fevereiro de 2010


Celestino Gonçalves



domingo, 14 de setembro de 2014

14 - PNG-MUSEU DE HISTÓRIA NATURAL, UMA PARCERIA QUE SE IMPUNHA




COMUNICADO DE IMPRENSA
PARA DISTRIBUIÇÃO IMEDIATA

O Parque Nacional da Gorongosa faz parceria com o Museu de História Natural de Maputo

Quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Moçambique, África – O Administrador do Parque Nacional da Gorongosa Mateus Mutemba visitou muito recentemente o Museu de História Natural de Maputo numa missão muito especial. Levou consigo quatro caixas de madeira, cheias de alguns dos mais belos tesouros naturais de Moçambique. À sua espera estava a Directora do Museu Dra. Lucilia Chuquela que recebeu as caixas em nome do Museu. Cada caixa continha um conjunto colorido de insectos recolhidos em áreas remotas do Parque Nacional da Gorongosa: enormes besouros couraçados; extraordinários exemplares de gafanhotos, grilos e esperanças; e bonitos louva-a-deus, os mais refinados predadores do mundo dos insectos.

Ao entregar os espécimes, o Administrador Mutemba comentou: "É com um enorme prazer que trazemos a primeira parte das amostras dos insectos recolhidos durante a pesquisa da biodiversidade feito pelo Laboratório de Biodiversidade do Parque Nacional da Gorongosa. Todos os espécimes foram identificados por especialistas e representam as três primeiras ordens de insectos (Coleoptera, Orthoptera e Mantodea) que queremos estudar em detalhe na Gorongosa."



Por  parte do  Museu de História  Natural, a Directora afirmou que “O Museu como  parte  integrante  da Universidade  Eduardo  Mondlane é  detentor da maior colecção de insectos da região da Cahora Bassa. E como uma das funções deste Museu é o conhecimento da Biodiversidade de Moçambique, ao recebermos estas  espécimes de insectos do Parque Nacional da Gorongosa, estamos a contribuir para o  conhecimento  da  Biodiversidade desta região. Por outro  lado o depósito destes espécimes no Museu  vai ajudar aos investigadores nacionais e estrangeiros o estudo da fauna do Parque Nacional da  Gorongosa.”

O novo Laboratório de Biodiversidade do Parque Nacional da Gorongosa foi inaugurado em Março de 2014, em acto testemunhado por uma audiência impressionante de dignitários e cientistas de renome mundial. Esta nova instalação tem como um dos seus objectivos a documentação da biodiversidade de Gorongosa e da sua Zona Tampão. Equipamentos modernos e técnicas científicas são usados para recolher espécimes que são armazenados numa inovadora instalação de arquivo de colecções. Esta recolha e identificação irá desenvolver ainda mais a reputação do Parque Nacional da Gorongosa como um dos parques mais exclusivos e especiais no mundo, e melhorar significativamente a reputação da biodiversidade de Moçambique entre a comunidade científica mundial.

Uma equipe de especialistas internacionais de museus e universidades ao redor do mundo está a processar os restantes insectos recolhidos durante as pesquisas. Alguns dos espécimes são novos para a ciência, pelo que o processo de identificação e classificação leva mais tempo. Essas amostras serão enviadas para o Museu de História Natural, em devido tempo.

Depois deste começo auspicioso, o Museu de História Natural e o Parque Nacional da Gorongosa vão agora desenvolver ainda mais o seu relacionamento, a fim de melhor compreender e proteger o rico património natural do país. O Administrador Mutemba comentou: "Esperamos que esta primeira colecção represente o primeiro passo do que será uma cooperação e parceria longa e frutífera entre as nossas instituições."

O Museu de História Natural e o Laboratório de Biodiversidade da Gorongosa são parceiros naturais na busca de ampliar ainda mais o conhecimento da biodiversidade de Moçambique. O Museu tem sido historicamente o principal repositório de colecções de espécimes e actualmente possui uma diversidade impressionante de animais grandes e pequenos. As amostras colhidas em expedições futuras também serão entregues ao Museu, ampliando ainda mais as suas excelentes colecções.



Uma componente chave desta colaboração será a formação de uma nova geração de cientistas Moçambicanos, os futuros administradores do extraordinário património natural do país. Este aspecto da missão do laboratório será desenvolvido por meio de parcerias com a Universidade Eduardo Mondlane e Universidade Lúrio. Vários formandos jovens Moçambicanos já estão a trabalhar no laboratório e muitos mais irão se juntar a eles nos próximos anos.

Sobre o Parque Nacional da Gorongosa e o Projecto de Restauração da Gorongosa

O Parque Nacional da Gorongosa é o mais conhecido parque nacional de fauna bravia de Moçambique e situa-se no extremo sul do Grande Vale do Rift Africano. É o lar de alguns dos ecossistemas biologicamente mais ricos e geologicamente diversos do continente Africano. Os seus limites abrangem as grutas e desfiladeiros profundos do Planalto de Cheringoma, as vastas savanas do Vale do Rift e a preciosa floresta tropical húmida da Serra da Gorongosa. No entanto, os ecossistemas foram profundamente afectados durante o conflito civil em Moçambique (1977-1992). Depois da guerra, em 1993-1996, os caçadores ilegais incrementaram a destruição, e muitas das grandes populações de animais da Gorongosa foram reduzidas em mais de 90%.

Em 2005, a Fundação Carr, uma organização dos EUA sem fins lucrativos fundada pelo filantropo americano e conservacionista Gregory C. Carr, juntou-se com o Governo de Moçambique no âmbito de um memorando de entendimento para restaurar o Parque Nacional da Gorongosa. A parceria, conhecida como "Gorongosa Restoration Project" (GRP), é um dos mais ambiciosos esforços de restauração de parques jamais tentado (a restauração também tem beneficiado do apoio da USAID). O acordo promove o duplo objectivo de restauração de ecossistemas e melhoria do desenvolvimento humano para as comunidades locais. Até agora, o GRP revitalizou equipes anti-caça furtiva; reconstruiu infra-estruturas do parque; realizou monitorização biológica; reintroduziu herbívoros (zebras / bois-cavalos / búfalos / elefantes / hipopótamos); construiu infra-estruturas sociais para as comunidades vizinhas, centros de educação e investigação científica; estabeleceu programas de agricultura e de saúde em colaboração com os governos dos distritos vizinhos; e em 2010 o Governo de Moçambique expandiu os limites do Parque para incluir a Serra da Gorongosa e uma zona tampão de 3.300 quilómetros quadrados em torno do Parque.



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Se desejar receber mais informações sobre este assunto, ou se pretender marcar uma entrevista com as pessoas envolvidas no projecto, por favor ligue para Vasco Galante através de +258 822970010 ou envie email para vasco@gorongosa.net.

Para informações de carácter genérico, por favor consulte www.gorongosa.org




sábado, 26 de abril de 2014

13 - PROJECTO LEÕES DA GORONGOSA


Pedido do Projecto Leões da Gorongosa / Request from Gorongosa Lion Project

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Leao2Os nossos leões precisam da sua ajuda!
O Projecto Leões da Gorongosa foi criado para a recuperação, com base científica, dos leões do Parque Nacional da Gorongosa e este ano estamos a começar uma avaliação genética dos leões do Parque. Estamos a trabalhar intensivamente para perceber como recuperar da forma mais eficaz esta preciosa população de leões e a composição genética da nossa população é uma questão crítica que precisa ser resolvida, e em última análise acabará por determinar acções urgentes de recuperação dos leões, a levar a cabo pelo Parque.
Precisamos de obter pequenas amostras de 2x2 cm de pele e/ou tecido de troféus de leões provenientes do Parque Nacional da Gorongosa (ou das áreas circundantes) durante as últimas décadas. Caso possua um destes troféus, proveniente da região da Gorongosa, o mesmo poderá ser de grande ajuda para a obtenção de dados importantes. As amostras podem ser cortadas das dobras onde a pele foi dobrada e costurada sem danificar o troféu.
Se nos puder ajudar neste importante estudo, ou se precisar de mais informação, por favor contacte Paola Bouley (paola@gorongosa.net), Rui Branco (chibedjana@hotmail.com) e Vasco Galante (vasco@gorongosa.net).

PS - Por favor circular este email caso conheça alguém que possa contribuir com as amostras acima referidas.  
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Dear Friends of Gorongosa,
Our lions need your help!
Gorongosa Lion Project is dedicated to the science-based recovery of lions in Gorongosa National Park and this year we are beginning a genetic assessment of the Park's lions.  We are working hard to understand how to most effectively recover this precious lion population and the genetic composition of our population is a critical question we need to address that will ultimately steer urgent lion recovery actions undertaken by the Park.
We need to secure small, 2x2-cm patches of skin/tissue from lion trophies taken from Gorongosa National Park (or nearby) from pre- or post-war years.  If you were a trophy hunter in or around the Gorongosa area during prior years, you can help us gather this important data.  The samples can be snipped from the folds where the skin were tucked and sewn together without harm.
If you can assist with this important study, or need further info, please feel free to contact Paola Bouley (paola@gorongosa.net), Rui Branco (chibedjana@hotmail.com) and Vasco Galante (vasco@gorongosa.net).
PS - Please circulate this email if you know someone who can help with the samples referred above.







segunda-feira, 14 de abril de 2014

12 - LEI PARA COMBATER A CAÇA FURTIVA EM MOÇAMBIQUE



 PUNIÇÃO AOS CAÇADORES FURTIVOS - UMA LEI QUE PECA POR TARDIA




Finalmente!

Uma Lei acabada de aprovar em Moçambique vem colmatar uma lacuna existente naquele país irmão no que respeita à preservação das espécies em vias de extinção, nomeadamente o Rinoceronte e o Elefante.

Tal Lei, que peca por tardia e talvez pouco servera, deveria ter sido feita logo após a adesão de Moçambique à Convenção Internacional sobre Comércio das Espécies em Perigo de Extição (CITIES), em 1981, altura em que no país ainda havia um considerável número de Rinocerontes, posteriormente desaparecidos devido a factores bem conhecidos e à impunidade dos caçadores furtivos e dos seus mandantes. Eu próprio, nessa altura ainda em funções em Moçambique, fiz uma comunicação num seminário sobre conservação de fauna e florestas, em que foquei a situação (já muito precária) do Rinoceronte no país e alertava as autoridades de cúpula para medidas drásticas em relação aos furtivos e também aos traficantes dos seus cornos, referindo um dos príncipais canais de saída deste produto, apenas ao alcance dessas autoridades.

A situação dos últimos anos, quanto aos Rinocerontes e aos Elefantes, tornou-se de tal modo insustentável que tem posto em risco não só a existência destas espécies (o Rinoceronte está praticamente extinto no país), mas também o futuro dos Parques e Reservas onde as mesmas  eram a bandeira principal que atraíu avultados investimentos estrangeiros  e nacionais com vista à sua preservação, destacando-se os Parques da Gorongosa, Limpopo e Banhine e Reservas do Niassa e Maputo.

No artigo do jornal Savana, do passado dia 11, que abaixo se transcreve, dá-se conta do alastramento da situação ao país vizinho, onde os furtivos idos de Moçambique têm causado avultadas baixas nos efectivos das referidas espécies, ao ponto de as autoridades do Parque Krueger  ameaçarem romper com o acordo que levou à criação do Parque Transfronteiro do Limpopo e voltarem a colocar as fortes vedações entre estes dois parques, que levantaram  a quando dessa criação em 2000.


ARTIGO DO JORNAL MOÇAMBICANO "SAVANA"

AR aprova Lei que dá 12 anos de cadeia aos caçadores furtivos
Ricardo Mudaukane
Depois de o país ter servido de paraíso para os caçadores furtivos, o Estado moçambicano dá mostras de estar determinado em agir contra a chacina de animais em extinção, principalmente elefantes e rinocerontes.
Pela primeira vez na história de Moçambique, a Assembleia da República aprovou quarta-feira, na generalidade, uma lei que torna crime a caça furtiva de espécies em extinção.
A lei foi aprovada, ainda que na generalidade, com os votos a favor dos deputados das três bancadas do parlamento moçambicano, o que sinaliza a preocupação colectiva com o impacto da caça furtiva em Moçambique.
O comando normativo avalizado pela Assembleia da República prevê penas entre oito a 12 anos de cadeia a caçadores furtivos de espécies protegidas e a autores de fogo posto com fins de caça clandestina de animais protegidos.
O uso ilegal de armas de fogo e de armadilhas, mesmo contra animais não protegidos, acarretará sanções penais até dois anos, de acordo com o instrumento legal em causa.
A proposta defende que a exploração ilegal, armazenamento, transporte ou venda de espécies protegidas será sujeita a multas entre 50 a mil salários mínimos.
A violação de artigos da Convenção Internacional sobre Comércio de Espécies em Perigo (CITIES) será igualmente multada com sanções pecuniárias até mil vezes o salário mínimo.
Fim da impunidade?
Falando na apresentação da proposta de lei, ora aprovada na generalidade, o ministro moçambicano do Turismo, Carvalho Muária, afirmou que a norma decorre do facto de Moçambique não deter um instrumento punitivo com a necessária severidade.
Carvalho Muária apontou, a título de exemplo, que entre dois a três elefantes são diariamente abatidos na Reserva do Niassa, norte de Moçambique, colocando em risco a população daqueles paquidermes.
Por outro lado, o país tem sido usado como corredor para o trânsito de caçadores furtivos em incursões no parque sul-africano de Krueger, onde centenas de elefantes e rinocerontes são anualmente abatidos por caçadores furtivos, que extraem pontas e cornos para venda no mercado asiático.
Dezenas de moçambicanos morrem por ano em confrontos com as Forças de Defesa e Segurança da África do Sul, durante a caça furtiva, e tantos outros cumprem actualmente pesadas penas de prisão em conexão com a actividade.
O Governo sul-africano tem demonstrado publicamente o seu desagrado com a contraparte moçambicana por considerar que a falta de leis penais em Moçambique é uma das causas da alegada impunidade com que os caçadores furtivos actuam entre os dois países.
Aqueles que degradarem o ecossistema, através da desflorestação, fogo ou outro acto ilícito, serão obrigados a restaurar a área afectada, sendo igualmente obrigados a pagar pelo repovoamento de espécies atingidas pelas suas acções, além de outras sanções legalmente previstas.
“O Estado moçambicano assume as suas responsabilidades perante a humanidade, para a protecção da biodiversidade no seu território”, disse o ministro do Turismo de Moçambique, Carvalho Muária, durante a apresentação da proposta de lei, ora aprovada na especialidade.
De acordo com Muária, a lei pretende fomentar a reabilitação das áreas de conservação, bem como garantir a concepção de modelos de gestão inovadores e pragmáticos dos recursos florestais, conciliando os interesses dos sectores públicos e privados.
Ao abrigo da lei em causa, cada área de conservação será gerida por um conselho, presidido por um administrador nomeado pelo Governo, coadjuvado por representantes das comunidades locais, sector privado e entidades estatais.
“O Estado poderá estabelecer parcerias com o sector privado, comunidades locais, organizações com o sector privado, comunidades locais, bem como organizações nacionais e estrangeiras da sociedade civil, por via de contratos, para a criação de sinergias a favor da preservação da diversidade biológica”, diz a proposta de lei.
SAVANA – 11.04.2014

(FIM DE TRANSCRIÇÃO)

Lisboa, 13 de Abril de 2014
Celestino Gonçalves